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sexta-feira, 8 de julho de 2016

Recortes

Você borrou meu batom. E eu não deixo meu batom vermelho sair da boca se não quiser desesperadamente beijar alguém. Mas eu quis. Desde o início, fui eu quem te quis. Eu olhei, eu cheguei perto, eu puxei assunto. Eu te levei para o bar. Fiquei impaciente esperando a sua boca encostar na minha. Mas quando finalmente aconteceu, eu soube que estava perdida. Que não deveria ter ido atrás. Não deveria ter procurado sarna pra me coçar. Não deveria ter sorrido e perguntado seu nome. Os nossos corpos se colaram e eu não ouvi mais música nenhuma. A gente se encaixou um no outro e eu estava tão costurada em você que não podia nem pensar em ir embora. Esqueci completamente que tinha gente em volta. Nem liguei pro meu rosto todo pintado de vermelho. Enquanto você brincava com a barba no meu pescoço, eu só me perguntava o que diabos estava acontecendo ali. Se não precisasse ir pra casa, acho que estaria lá até hoje. Que coisa maluca essa tal de química. Coisa que não tem receita, que a gente não consegue explicar. Coisa que simplesmente acontece e a gente não sabe dizer de onde veio. Parece até sobrenatural. A verdade é que nós nunca tivemos nada a ver e você sabia ser mais terrível do que qualquer outro cara que já tinha cruzado meu caminho, mas quando eu te avistava em algum lugar e sentia seu cheiro, simplesmente sabia que ia te deixar borrar meu batom de novo.

***

Com você eu tinha absolutamente tudo a ver. Pena que só no fim eu pude constatar aquilo que já desconfiava desde a primeira vez que te vi: nós dois poderíamos passar horas conversando e ainda assim ter assunto. E isso de tão bom chega a ser assustador. Sempre achei que há algo perigosamente mágico nessas conversas intermináveis. A gente sempre acaba dividindo coisas profundas que deveria manter bem escondidas. Mas você apareceu quando minha cabeça estava um turbilhão, quando meus pensamentos tinham outro protagonista. E só reapareceu quando eu já não tinha mais tempo. E aí não deu outra e eu fiz o que faço de melhor: fugi. Ou melhor, tentei fugir. Porque você sempre me alcançava com esse sorriso meio safado e esses olhos de menino que quer ser abraçado pelo mundo. E me provocava, me apertava, não queria me deixar ir. E quando eu puxei teu lábio inferior com os meus naquele último dia, te senti prestes a perder a razão. Será que eu estava certa? Acho que nunca vou descobrir. Sabia que no dia seguinte o cheiro do seu cabelo ainda estava nas minhas mãos? Acho que você nunca vai saber. Por aqui ficou um gostinho de "e se...", um gostinho do que poderia ter sido e não foi, um gostinho de história sem fim. Mas eu notei em você uma vontade imensa de viver e aquilo me inspirou. E é isso o que mais me atinge quando me lembro.

Love, Tary

sábado, 2 de novembro de 2013

Vai saber

Às vezes eu me pego perguntando o porquê de ter amigos. É sério. Eu sou a única louca que questiona isso? Traçando o meu perfil, talvez eu mesma não fosse minha amiga. Eu sou confiável, isso é bem verdade. Praticamente esqueço os segredos que me contam. Mas será que eu sou legal? Será que sou uma companhia agradável? Tenho minhas dúvidas, sinceramente. Acho que às vezes moro dentro de mim mesma de um jeito que impede os outros de me convidarem pra sair e sentir o sol, só um pouquinho. E também assumo uma postura defensiva de quem já sofreu um bocado por ter aberto uma brechinha e se permitido espiar o que tem do lado de fora. Talvez por isso eu quase sempre me sinta a pessoa que não vai fazer tanta falta assim se não comparecer àquela festa, já que muito provavelmente foi a última a ser lembrada na execução da lista. E talvez por isso eu nunca saiba dizer se preferem que eu seja a piada para rirem com os outros na mesa, ou se preferem rir de alguma outra coisa comigo do lado. Ou talvez eu só tenha acordado meio triste hoje, vai saber.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Corra, Tary, corra!

Eu estou correndo. Preciso correr e nada é capaz de me impedir disso. Estou esgotada, minha respiração falha várias vezes, mas não deixo meu corpo prevalecer sobre a minha aparente vontade. Continuo correndo, suando, tremendo de adrenalina. Não existe espaço para errar nem cair, muito menos para desistir ou enfraquecer. Eu continuo, corro, sinto o cabelo grudar no rosto e lágrimas saírem dos olhos por causa do esforço, mas sequer penso em parar e descansar. E, Deus, eu preciso tanto descansar, tomar uma água de coco e aproveitar o seu sabor. Porém, a minha mente não deixa. Ela não quer que eu descanse. Apenas me resta esperar que a queda não seja vertiginosa e dolorida. Até lá, permaneço dominada. Continuo correndo até que algo mais forte me faça parar.


Love, Tary

terça-feira, 26 de julho de 2011

Começos


Todo mundo sabe que começar assusta. Aquela angústia no peito, aquela ansiedade insistente. A coragem de todos os dias se evaporando diante do desconhecido. Uma dorzinha exposta no olhar, no mau-humor matinal e nas pernas formigando. A zona de conforto de repente arrancada e o controle da vida ameaçando escapar das mãos. Se todo dia representa um novo começo, por que o medo ainda se faz presente? Talvez ele seja uma espécie de proteção tentando revelar que o que é novo necessita de cuidados. O importante é que depois do começo, novas possibilidades aparecem, o hábito vem acompanhado da rotina e o medo inicial vai desaparecendo no ritmo certo. Não há espaço para preparação, basta pedir que os novos presentes da vida façam rir, aprender e ter certeza a respeito do lugar no mundo. Só resta respirar fundo e imaginar o que virá depois. 


Love, Tary

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Silly and lovely

Lixo, purpurina, bilhetes azuis e exageros. Acordo sem vontade de acordar e tenho medo do abrir de olhos significar uma nova batalha da qual não posso fugir. E sempre significa. O mundo inteiro sabe, o corpo avisa e os sonhos também. Sonho que estamos juntos, sua voz grave de beijos urgentes entrelaçando meu pescoço. Desperto mais viva do que nunca, mas ao mesmo tempo, prestes a morrer. Queria sorrir, fixar meu olhar no teu rosto queimado de sol, mas sempre desvio. Ríspida, séria, profundamente covarde. Enquanto tudo o que queria era sustentar meu olho no teu olho por tempo suficiente para descobrir se você também sente. Mas abraço a dúvida com as mãos trêmulas e busco meu caminho nas músicas sonolentas, nas olheiras de insônias vendidas e... em você. Na ideia perigosa do que poderia ser. In your silly and lovely smile.



Love, Tary

P.S: Beijo pra quem sacou as referências na estrofícula ;)

domingo, 22 de maio de 2011

Perfect. Just perfect. To me.


Pretty pretty please
If you ever ever feel
Like you're nothing
You're fucking perfect to me
(Fucking Perfect, P!nk)

Depois de uma semana inteira de trabalhos, livros e sonhos adiados, talvez você descubra alguma coisa especial olhando para o seu tênis colorido de roxo, dourado e poeira. Talvez você olhe para a escuridão, escute uma música feita por alguém que parece te entender mais do que você mesmo. Talvez coma milhões de coisas por segundo tentando ignorar a ansiedade e aquele gosto amargo de vazio na boca. Ou talvez não coma nada pelo mesmo motivo. Mas você não é estúpida, garota. Só é cheia de fases, dúvidas e vontades. Talvez você esteja farta de drama e dance sozinha no quarto, chame alguém para dançar com você. Rodopie feito insana, faça da escova de cabelo um microfone de cantora de R&B, fique de saco cheio disso e vire rock star. Talvez você tenha acordado com aquela felicidade sem motivo, só isso. Ou talvez você tenha descoberto que por mais boba que sua vida seja, por mais que erros e arrependimentos sejam acumulados todos os dias, sempre existe alguém para quem você é simplesmente perfeita. Não se esqueça disso. Nunca. 

Garota que um dia se sentiu menos do que perfeita, essas palavras são pra você. Você não precisa ser impecável, mas a sua imperfeição é perfeita para alguém.

Love, Tary

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Motivos

Sei que estou bem sumida daqui. E nem é por falta de criatividade ou preguiça. É mais por vazio. E quando estou meio amortecida desse jeito as palavras me faltam como se nunca tivessem estado presentes. Só o que quero é me trancar no meu quarto ficar comendo chocolate debaixo do edredom, de pijamas e com o cabelo embaraçado. Esquecer que existe um mundo lá fora que me espera, emendar dias dormindo, apertar o play e assistir minhas séries favoritas. Enquanto Dexter "faz um limpa" nos assassinos, eu tiro as cutículas. É só Abed citar uma referência pop em Community e eu já estou rindo, já me esqueci. Brick sussurra mais uma vez em The Middle, e eu abraço o travesseiro, está tudo bem. Mas basta uma segunda-feira, um teste em que você fracassou, um trabalho da faculdade e... bum! Acorda, sua vida te espera e não dá pra se esconder. Aí abro os olhos de manhã, tampo as olheiras, ponho os óculos desgastados e continuo. E meu diário continua vazio. Tudo está. 


P.S: NÃO estou triste, juro. É que a gente precisa botar pra fora vezenquando =) 


Love, Tary

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Desatina sem doer


Revistas de moda recortadas, grudadas no chão molhado de vinho tinto e tristes cacos de vidro emoldurando uma forma exausta, são feito mosaicos sem cor e sem vida. Cabelos suados e rímel borrado brigando num rosto adormecido de solidão. Pés tomados por bolhas, descalços de qualquer armadilha. Vestido preto safado e no relicário entreaberto, afundado no decote, duas fotos envelhecidas sem foco. Nos ombros desnudos, a figura de uma serpente multicolorida assustadora. E nos olhos que se abrem, castanhos e mega dilatados, um brilho de inocência perdida, uma mordida da cobra, uma dor de Camões e uma expressão de quem quer tudo e não vai esperar. 


Escrevi na madrugada de hoje e resolvi chamar esse tipo de texto de "estrofículas", inspirada no Luís Fernando Veríssimo, que chama seus pequenos textos de "textículos", haha!

Love, Tary