sexta-feira, 8 de julho de 2016

Recortes

Você borrou meu batom. E eu não deixo meu batom vermelho sair da boca se não quiser desesperadamente beijar alguém. Mas eu quis. Desde o início, fui eu quem te quis. Eu olhei, eu cheguei perto, eu puxei assunto. Eu te levei para o bar. Fiquei impaciente esperando a sua boca encostar na minha. Mas quando finalmente aconteceu, eu soube que estava perdida. Que não deveria ter ido atrás. Não deveria ter procurado sarna pra me coçar. Não deveria ter sorrido e perguntado seu nome. Os nossos corpos se colaram e eu não ouvi mais música nenhuma. A gente se encaixou um no outro e eu estava tão costurada em você que não podia nem pensar em ir embora. Esqueci completamente que tinha gente em volta. Nem liguei pro meu rosto todo pintado de vermelho. Enquanto você brincava com a barba no meu pescoço, eu só me perguntava o que diabos estava acontecendo ali. Se não precisasse ir pra casa, acho que estaria lá até hoje. Que coisa maluca essa tal de química. Coisa que não tem receita, que a gente não consegue explicar. Coisa que simplesmente acontece e a gente não sabe dizer de onde veio. Parece até sobrenatural. A verdade é que nós nunca tivemos nada a ver e você sabia ser mais terrível do que qualquer outro cara que já tinha cruzado meu caminho, mas quando eu te avistava em algum lugar e sentia seu cheiro, simplesmente sabia que ia te deixar borrar meu batom de novo.

***

Com você eu tinha absolutamente tudo a ver. Pena que só no fim eu pude constatar aquilo que já desconfiava desde a primeira vez que te vi: nós dois poderíamos passar horas conversando e ainda assim ter assunto. E isso de tão bom chega a ser assustador. Sempre achei que há algo perigosamente mágico nessas conversas intermináveis. A gente sempre acaba dividindo coisas profundas que deveria manter bem escondidas. Mas você apareceu quando minha cabeça estava um turbilhão, quando meus pensamentos tinham outro protagonista. E só reapareceu quando eu já não tinha mais tempo. E aí não deu outra e eu fiz o que faço de melhor: fugi. Ou melhor, tentei fugir. Porque você sempre me alcançava com esse sorriso meio safado e esses olhos de menino que quer ser abraçado pelo mundo. E me provocava, me apertava, não queria me deixar ir. E quando eu puxei teu lábio inferior com os meus naquele último dia, te senti prestes a perder a razão. Será que eu estava certa? Acho que nunca vou descobrir. Sabia que no dia seguinte o cheiro do seu cabelo ainda estava nas minhas mãos? Acho que você nunca vai saber. Por aqui ficou um gostinho de "e se...", um gostinho do que poderia ter sido e não foi, um gostinho de história sem fim. Mas eu notei em você uma vontade imensa de viver e aquilo me inspirou. E é isso o que mais me atinge quando me lembro.

Love, Tary

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Vinte músicas e muitos gifs

Nunca antes na história desse blog responder um meme foi tão difícil. Dia desses menina Rafitcha me indicou a TAG 20 Músicas, trazida para o Brasil pela Karol Pinheiro, e sinceramente eu achei que não ia conseguir. Olhava para as categorias e não fazia a menor ideia do que escolher. Ou tinha tantas possibilidades em mente que ficava maluca, sem conseguir me decidir. Mas saiu. E devo dizer que acabou sendo muito divertido. Preparem-se para surpresas, nostalgias e muitos, muitos gifs.

1) Sua música favorita

E eis que a primeira categoria já me deixou paralisada na frente do computador, claro. Praticamente todos os meses eu tenho uma nova música favorita. Fiquei umas boas horas refletindo e meu primeiro pensamento foi “Something”, dos Beatles, por motivos de: a música mais bonita do mundo. Mas a verdade é que não escuto há séculos e não tenho nenhuma conexão transcedental com ela. Ao contrário de Stop This Train, do John Mayer. É uma canção que vira e mexe eu PRECISO ouvir para ter certeza de que alguém nesse mundo entende como é difícil crescer e lidar com tudo o que esse processo maluco envolve. Um dos mantras da minha vida.

john

2) A música que você mais odeia

Vocês vão ver abaixo que não tenho absolutamente nada contra sertanejo. Mas eu lembro direitinho do quanto essa música grudava na minha cabeça e se recusava a sair toda vez que começava a tocar. Era um nightmare absoluto. Só de pensar no nome ela já ameaça se instalar no meu cérebro. Estou falando de Mozão, do Lucas Lucco. Gente. Desenvolvi uma espécie de fobia ao vocal sussurradinho, ao sotaque carregado do moço, à letra, tudo. Tanto que, quando eu ouvia os primeiros acordes na rádio, já trocava de estação. O clipe tem toda uma mensagem legal, com depoimentos de mulheres que venceram o câncer, mas não consigo gostar da música.

3) Uma música que te deixa triste

Já cheguei a descrever essa como “a música mais triste do meu mundo”. Anos se passaram e nada mudou. Clarisse, da Legião Urbana, continua sendo a coisa mais deprimente que já ouvi na vida. Quando Renato Russo canta “e a dor é menor do que parece, quando ela se corta, ela se esquece”, eu já estou em posição fetal, pensando em todas as pessoas tristes que se sentem sozinhas e incompreendidas. São longos minutos de total desesperança e descrença na humanidade, até o final. “Eu sou um pássaro, me trancam na gaiola, mas um dia eu consigo existir e vou voar pelo caminho mais bonito”. Clarisse me dói tanto que só consigo ouvir, sei lá, uma vez por ano. Mas vale à pena. Pura poesia.

4) Uma música que te lembra alguém

Veveta é uma das poucas artistas a se dividir confortavelmente entre rainha suprema do Axé e diva da MPB. A maioria das músicas dela me remete à minha família. Se tem uma cantora que domina as festas lá de casa, essa cantora é Ivete Sangalo (o que sempre gera reclamações de uma das minhas tias, enquanto eu e minha irmã fingimos não ouvir). Porém, uma canção em especial me faz lembrar de - veja só você - meu primeiro amor. Demorei uns 8 anos pra conseguir escutar Deixo, mas a tristeza passou. Agora só sinto  uma melancolia bonita, misturada com a nostalgia dos meus 15 anos. Digam o que quiserem, a letra é uma das mais bonitas já feitas.

5) Uma música que te deixa feliz

Assim que o verão acabou na Irlanda, tudo o que eu ouvia era Banda do Mar. Aquelas canções bonitas me lembravam de casa, me devolviam o calor do Brasil e melhoravam os meus dias mais cinzentos. Lembro de ter escutado Mais Ninguém pela primeira vez numa house party inesquecível e precisei conferir o CD inteiro no dia seguinte. Essa música é capaz de levantar meu astral imediatamente, de um jeito delicioso. Sinto vontade de dançar na grama de pés descalços e girar por aí usando um vestido bem rodado.

mallu2

6) Uma música que te lembra um momento específico

Mais uma vez: são tantas. Mas ontem mesmo eu estava na casa de algumas amigas, colocamos o CD do Ed Sheeran para tocar e quando Tenerife Sea começou, eu contei a elas o quanto chorei ao ouvir essa canção ao vivo durante o show dele, no ano passado. Foi uma das coisas mais emocionantes que eu já presenciei. Parecia que existia uma aura diferente em volta do Ed, sabe? Meu corpo inteiro se arrepiou e eu tive certeza de que estava diante de uma coisa muito especial, única. Você pode ver o vídeo e achar que é só um cara com um violão. Pra mim, aquilo foi mágica.

7) Uma música que você sabe a letra inteira

Eu obviamente tinha várias outras alternativas, mas acho assombroso o fato de ainda saber cantar cada palavra do hit Tem que Valer, da banda Kaleidoscópio, lançado em 2005 (!!!!!!) . Não se engane. Você já ouviu essa música. Clique no link e verá. Mas se não quiser, eis um trecho inconfundível: “Rolei na areia e fiquei louca, muito louca”.

8) Uma música que te dá vontade de dançar

Não sou fã da Beyoncé. Calma, isso não quer dizer que desgosto. Só não colocaria no meu TOP 5 divas pop, sabe? Acho foda, sei da importância, rebolo muito a bunda quando a voz dela ecoa na balada, mas não iria no show por exemplo (todo mundo se matou pra comprar ingresso aqui em Dublin e eu só queria mesmo é conseguir um pra ver a Adele). No entanto, minha gente. NO ENTANTO. Existe um acontecimento. Um acontecimento chamado Love on Top. Isso não é uma música. Isso é um hino. Fico louca toda vez que os péssimos DJs dessa cidade me presenteiam com – alerta breguice - esse diamante em forma de canção.

beya

9) Uma música que te faz dormir

Espero que isso não seja entendido como ofensa. Amo muito a Norah Jones, mas suas canções são perfeitas para deixar rolando enquanto o sono não vem. Por isso, vamos de: Don’t know why. Desde de Mulheres Apaixonadas e para todo o sempre, amém.

10) Uma música que você gosta em segredo

Só é segredo mesmo porque eu nunca disse aqui. Gente, eu adoro o Michel Teló. Há anos. Fui grande fã do Grupo Tradição (importante lembrar que tenho sangue sul-mato-grossense), que ele liderava antes de estourar com a carreira solo e sempre torci pra que tudo desse muito certo pro Michel. E deu, né? Fiquei sorrindo de orelha a orelha na primeira entrevista com o Jô, na época de "Fugidinha", "Humilde Residência" e “Ei, Psiu, Beijo, Me Liga”. Defendi e ainda defendo dos chatos que reclamam do sucesso de "Ai se eu te pego" (vergonha eu teria é de ser chata que nem todos vocês ). Tô louca pra ter show dele em Campo Grande quando eu voltar pro Brasil (quero selfie). Shippo forte o relacionamento com a Thaís Fersoza (louca pra ele colocar logo no YouTube o sambinha delicioso que fez pra ela). E morro de amor quando ele toca sanfona. No DVD novo, Michelzinho canta com nada mais nada menos do que o Grupo Tradição.  A sanfona chorou. E eu vibrei como se tivesse 14 anos de novo. Além disso, no Bem Sertanejo, projeto que descobri recentemente, ele canta vários clássicos do sertanejo raiz com convidados especiais. Chorei quando ele apareceu com Almir Sater e Jads & Jadson? Chorei sim. Música favorita: todas ¯\_(ツ)_/¯. Beijo pra quem não conseguir lidar com essa informação.

micheltelo

11) Uma música que você se identifica

O albúm inteiro da Sandy me causa uma identificação maravilhosa, mas Sim é covardia. A letra casa perfeitamente com o que aconteceu comigo de 2015 pra cá. “Eu disse sim pro mundo, eu disse sim pros sonhos e pra tudo o que eu não previa”. Escutar essa música foi como reencontrar uma velha amiga de infância, na mesma situação que eu, me dizendo que “eu podia mais do que eu sabia”. Ainda bem que ainda temos você, Sandy. Obrigada.

sandyy

12) Uma música que você amava e agora odeia

Pobre Sara Bareilles. O único motivo para eu detestar a anteriormente amada Bottle it Up é que um belo dia inventei de colocar essa música como despertador do celular. Aí não teve jeito.

13) Uma música do seu disco favorito

Decidi que vou mencionar uma música do meu atual disco favorito, que é E.MO.TION, da Carly Rae Jepsen. Não paro de ouvir e quanto mais eu escuto, melhor fica. Ainda não me conformo com o quanto esse pequeno milagre do pop foi subestimado pela mídia. Entre todas as minhas muitas favoritas, gostaria de indicar Run Away With Me. Essa maravilha ficará na sua cabeça o dia todo, mas de um jeito BOM, que vai te fazer dançar pela casa de pijama com uma escova de cabelo no lugar do microfone. Apenas ouçam.

14) Uma música que você consegue tocar em algum instrumento

Risos. Eu obviamente não sei lidar com instrumento algum. Sério, acho que não sei nem como segurar um instrumento direito. Já contei aqui que meu sonho é aprender a tocar gaita. E se um dia isso acontecer, minha escolha seria a versão do Beck para True Love Will Find You in the End. A gaita faz por essa música o mesmo que um bom achocolatado faz pelo brigadeiro nosso de cada dia.

15) Uma música que você cantaria em público

Por algum motivo que só Deus e Freud podem explicar, me veio à mente essa cena icônica de Crossroads, com Britney Spears fingindo insegurança de um jeito super convincente (só que nunca) e cantando I Love Rock’n Roll. Também quero sensualizar no palco de barriga de fora enquanto giro num belíssimo pole dance.

16) Uma música que você gosta de ouvir quando está dirigindo

Risos de novo. Não dirijo há quase três anos. Vou substituir por “uma música que gosto de ouvir quando estou andando na rua com meus fones nos ouvidos”. Geralmente é alguma coisa da playlist do momento, mas sempre quando passo um batom vermelho e estou me sentindo poderosa, pode ter certeza que Mallu Magalhães está cantando Velha e Louca.

large (1)

17) Uma música da sua infância

Pensei em Sandy & Junior (moldaram meu caráter), Wanessa Camargo (de quem eu tenho os dois primeiros CDs originais, acredite se puder), Rouge (fiz uma apresentação de Asereje para toda a família, juntamente com várias das minhas primas) e Br’oz (sim, sim, sim, você é minha prometida e eu vou gritar pra todo mundo). No fim das contas, decidi ir mais longe no passado. Lua de Cristal, da Xuxa. Minha emoção quando o filme era anunciado na Sessão da Tarde não era desse mundo. Eu ficava tão genuinamente feliz, era lindo. E se você não consegue enxergar a beleza dessa canção maravilhosa, só consigo sentir pena da sua alma. Importante ressaltar que não só marcou minha infância, como é minha primeira escolha se um karaokê estiver disponível.

yAVgGP

18) Uma música que ninguém esperava que você gostasse

Depois da revelação sobre o Michel Teló, acho que perdi o shock value, mas ainda posso dividir com vocês, mesmo que fora de timing, minha música favorita de Carnaval: Praeiro, do Jammil. Sei cantar inteirinha (não só o refrão), obviamente danço a coreografia e acho que deveria tocar mais em festas. “Sou praieiro, sou guerreiro, tô solteiro, quero mais o quê?” Não dá pra querer mais nada depois disso mesmo.

19) Uma música que quer (ou tocou) no seu casamento

Desde que ouvi Pra você guardei o amor, de Nando Reis e Ana Cañas pela primeira vez, o verso “pra você guardei o amor que aprendi vendo meus pais” nunca mais saiu da minha cabeça e eu tive certeza de que essa música estaria no meu casamento.

20) Uma música que tocaria no seu funeral

Eu sempre digo que quero Cazuza tocando no meu funeral. E os trabalhos devem começar com Faz parte do meu show. Essa é uma das letras mais bonitas do Caju e conta a história de alguém “meio bossa nova e rock n’ roll”, que vaga na lua deserta “nas pedras do arpoador”. De um jeito que nunca vou conseguir explicar, eu sinto que a vibe dessa música tem tudo a ver comigo. Seria lindo que as pessoas se despedissem de mim escutando algo que eu amava.

cajuzinho

Agora vou passar essa roubada maravilhosa para Palo, Cacau e Couthinha. Vou adorar conhecer as 20 músicas de vocês, meninas. E preciso desejar boa sorte desde já: apesar de muito divertido, o trem é difícil.

Love, Tary

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

A minha maior insegurança, empatia e um recado

Faz tempo eu quero escrever sobre a maior das minhas inseguranças, mas sempre acabo adiando essa conversa. Voltar para uma época complicada da sua vida pode ser um processo extremamente doloroso e exaustivo. Por conta disso, quando a vontade de abordar esse assunto aparecia, eu me forçava a esquecer e escolhia alguma opção mais leve. Porém, de uns dias pra cá, a ideia de que esse texto pode ajudar alguém não para de martelar na minha cabeça. E, de algum modo, eu devo essas palavras à menina que eu fui um dia e tanto precisou delas.
 
Onze anos atrás, mais ou menos, eu  comecei a sofrer bastante com a acne e isso durou até o início da vida adulta. E eu sei que muita gente acaba de revirar os olhos e pensar: “Ah, todo esse drama por causa de algumas espinhas? Que bobagem!”. Só digo uma coisa: quem pensou isso, com toda a certeza do mundo, não teve um caso severo da doença (sim, é uma doença. A 8ª mais comum em todo o mundo) nem conviveu de perto com alguém que passou por isso. Além de ser um grande baque na autoestima, ela costuma aparecer justamente naquela fase em que não precisamos mesmo de mais um motivo para nos sentirmos mal a respeito das nossas aparências.
 
Comigo foi assim. Eu me comparava com as garotas da minha sala, passava horas olhando disfarçadamente àquelas peles livres do que tanto me atormentava. Eu invejava quem tinha a “sorte” de ter uma ou duas e me encolhia quando elas vinham se queixar comigo – justamente comigo –, como se ir reclamar com alguém que está em uma situação pior as reafirmasse. Hoje eu enxergo que elas eram tão inseguras quanto eu, mesmo que os motivos fossem diferentes, mas não consigo deixar de me perguntar o porquê dos comentários. Ah, os comentários. Meu pai sempre diz que quem bate esquece, mas quem apanha jamais esquece. Não preciso fazer esforço algum para deixar as memórias voltarem. Lembro de tudo. 
 
Do dia em que uma amiga veio até mim na hora do intervalo e parou nossa conversa no meio só para dizer: “Nossa, sua testa tá coberta de espinha”. Do dia em que a mais bonita da classe fez cara de pavor enquanto me questionava: “Gente, o que aconteceu com a sua pele?”. Do dia em que, na capela da escola, uma colega com pele de bebê pediu: “Ai, espreme isso aí que tá nojento”. Do dia em que o menino que tinha acabado de me beijar olhou para o meu ombro e perguntou: “Nossa, pura espinha, hein? Você não cuida?”. É engraçado como é difícil recordar certos detalhes desse tempo, mas ainda sei repetir cada palavra dessas frases.
 


Apesar das minhas lesões não serem tão graves quanto a dos meus primos, por exemplo, que deixaram sinais bem profundos na pele, nada do que eu fazia acabava com elas por completo (mais tarde eu descobri que isso tem nome: “acne resistente”). As espinhas podiam não ser grandes, mas eram muitas. E doloridas. Algumas noites, no escuro, eu tocava o meu rosto e começava a contar. Uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez… E nunca conseguia terminar porque as lágrimas me interrompiam. Houve um período em que eu não queria mais sair de casa, evitava fotos, passava o menor tempo possível me olhando no espelho, andava de cabeça baixa, não parava de ter pensamentos ruins. Era hora de procurar ajuda. Agradeço muito aos meus pais por terem entendido que “não eram só espinhas” e me levado ao médico. Façam o mesmo pelos seus filhos, por favor.
 
Passei por vários e vários dermatologistas, que me receitaram todo tipo de medicamento tópico que vocês imaginarem. Eu usava cada um deles com precisão militar e morria de frustração quando as espinhas não iam embora. Melhoravam, é verdade, mas sempre voltavam. Até que finalmente encontrei uma dermato de quem gostava e, depois de prescrever diversas opções, ela viu que os tratamentos convencionais não estavam funcionando. Foi aí que veio a sugestão de tentar o tal remédio fortíssimo (e bastante eficaz) sobre o qual eu havia lido algumas vezes.
 
Acho que comecei a tomar a Isotretinoína (ou Roacutan, como é mais conhecido) algum tempo depois do meu aniversário de 15 anos. Não quero me estender em detalhes técnicos, mas o remédio é extremamente forte e pode causar muitos efeitos colaterais. É preciso fazer exames de sangue mensalmente porque ele pode desregular as taxas do organismo, além de teste de gravidez (existe risco grave de malformação do feto e um termo de conhecimento de risco acerca disso era assinado pelos meus pais, por eu ser menor de idade na época). Tomei durante um ano e precisei tomar novamente, já adulta, quando a acne voltou (e começou a aparecer nas costas e no colo, lugares onde nunca tinha se manifestado antes). Na segunda vez, senti bem mais os efeitos do remédio e dei graças a Deus quando finalmente acabou (NÃO é brincadeira e passa longe de ser fácil. NÃO é uma escolha leviana. E não é à toa que geralmente é a última alternativa dos médicos. Parem de tratar esse remédio como se nada fosse, pelo amor de Deus). E então acabou. Eu estava livre, finalmente. Será?
 
Minha avó conta que a tática perfeita para me fazer comer legumes quando pequena era dizer que “eram bom para a pele”. Nunca liguei tanto para o meu cabelo (apesar de ter tido problemas com ele na adolescência também), ou tive grandes complexos com o corpo, mas sempre sonhei em ter uma pele linda. Hoje em dia, nada é mais libertador para mim do que sair por aí sem maquiagem. Há alguns dias, quando fui testar uma base na MAC e a vendedora disse que eu só precisava da mais leve – “Because your skin is gorgeous” - , meu coração se aqueceu por alguns segundos, mas só consegui pensar na versão mais jovem de mim. Aquela moça não fazia ideia de tudo o que ela passou para que a Taryne de hoje, anos depois, pudesse ouvir isso. As maldades que escutou calada, a quantidade de tempo (e dinheiro) gasto em dermatologistas, o sofrimento com os tratamentos. Minha vontade era voltar no tempo e dizer: “Tary, você já é linda. Muita gente vai dizer o contrário. Não acredita. Você é linda, você é linda, você é linda. ‘Bonita é ser você’. E um dia você não vai precisar que ninguém te diga isso”.
 


Todos os dias aprendo mais um pouco sobre a importância de me amar, de ter cuidado comigo mesma. Muita coisa mudou no decorrer dos anos que me separam daquela menina que chorava no chuveiro depois de ouvir crueldades mal disfarçadas. Eu me sinto bonita. Mas algo ainda gela dentro de mim quando uma espinha aparece no meu rosto. Não tenho muitas cicatrizes físicas da acne. As pessoas geralmente se impressionam quando conto que fui uma adolescente cheia de espinhas, mas as marcas emocionais sempre estarão aqui. E às vezes ainda doem.
 
Quem sofre de acne sabe que ela está ali. Provavelmente se torturou contando as lesões, como eu fazia. Chorou na frente do espelho e rezou para que aquele corretivo ajudasse a cobrir. Rezou para que, pelo menos naquele dia, naquele único dia, fosse deixada em paz. Qual é o motivo de relembrar algo que a pessoa está cansada de saber, como se ela fosse culpada?  Nunca façam isso. Sério. Nunca. Vocês não têm noção das consequências*.
 
E isso me leva à empatia. Não precisa ser um gênio para saber que muitos dos problemas do mundo se resolveriam se as pessoas fizessem o exercício de se colocar no lugar umas das outras. Parece tão simples, não é? Basta parar e refletir. Eu gostaria que me falassem isso? Eu gostaria que fizessem isso comigo? Será que vai magoar? Leve isso tudo em conta antes de ser responsável pelo sofrimento de alguém.
 










Agora, por último, quero falar diretamente com quem está passando pelo que eu relatei aqui. Primeiro de tudo, me abraça bem apertado. Como você leu acima, sei exatamente como é. Eu entendo. Eu sei que não é besteira. Eu te abraço (sim, mais uma vez).

Segundo: VÁ AO DERMATOLOGISTA! Desculpa pelo caps lock, mas só seu médico vai saber o tratamento certinho para o seu tipo de acne. Se você for adolescente, converse com seus pais, explique o porquê de ser importante (mostre esse post). Escolha um dermato bacana e confie nele.

Terceiro: Ninguém é obrigado a conviver com gente que aponta suas inseguranças deliberadamente. Ter espinhas não é culpa sua, como querem te fazer acreditar. Se essa pessoa for uma amiga, ou um amigo, explique que esse tipo de comentário magoa. E se não for o suficiente, se afaste. Você não precisa estar perto de quem te coloca para baixo.

Quarto: Isso pode ser clichê, mas preciso dizer mesmo assim. Vai passar. Seu tratamento vai dar certo. Tem solução. Não perca a esperança. Meu contato está aqui do ladinho se precisar de mim <3

Quinto: Mesmo quando as suas espinhas forem embora, as pessoas ainda vão arrumar razões para te julgar e te fazer sentir sem valor. Por isso preciso que leia isso o que eu tenho a dizer em seguida com bastante atenção, tá? Você é um ser humano lindo, eu sei. E mesmo sem te conhecer, me dou o direito de te enviar todo o meu amor. Eu te abraço (pela terceira vez e quantas mais você precisar).
 
Vídeo maravilhoso que me faz chorar horrores. Assistam!
Love, Tary

* Não posso falar com propriedade sobre várias outras inseguranças, porém aposto que elas cabem aqui também.
 
P.S: Por ser um texto muito pessoal, pensei se não devia postar na minha newsletter semana que vem, mas acho que estar aqui aumenta as chances de ajudar alguém que esteja passando por isso, quem sabe.

P.S2: Dedico esse post à minha irmã, que infelizmente (e eu rezei tanto para que isso não acontecesse), também teve um caso grave de acne na adolescência. Gio, eu te amo. Sei que você, mais do que ninguém, vai entender o propósito desse texto.

sábado, 23 de janeiro de 2016

Mas tudo bem

Quando a minha flatmate perguntou qual era o propósito de criar uma newsletter, eu disse que nem eu mesma sabia direito, mas todas as minhas amigas estavam fazendo e acompanhar a vida daquelas malucas nunca é demais. E foi bem isso. Apareci no nosso grupo do WhatsApp e a folia estava armada. Todas estavam conversando animadamente sobre esse trem que eu tinha zero ideia de como funcionava. Me mandaram ler o - maravilhoso - post de Anna Vitória, onde ela responde o que raios é newsletter e indica suas favoritas. Fui conquistada pelo frenesi coletivo, me inscrevi em várias, criei a minha e até já inaugurei, acreditam? 

Vou explicar o que eu entendi do negócio e vocês me corrijam se eu estiver errada. Quando você assina, os textos são enviados diretamente para sua caixa de entrada, quase como cartas da era moderna, ou tweets sem limite de caracteres. É meio isso, não? Ainda estou aprendendo. Mas achei fantástico saber que estou sendo lida sem depender do número de comentários, por exemplo. Apesar de ter consciência de que tenho leitores-fantasma por aqui, não tenho a menor de ideia de quantos são ou se ainda existem (oi, vocês estão aí ou desistiram de mim a partir do sumiço número 100?). 

E a verdade é que tenho ideias de textos quase todos os dias, que morrem na minha cabeça, ou vão parar no meu journal. Às vezes são só anedotinhas sobre a minha vida de intercambista, coisas bobas sobre as quais quero tagarelar e dramédias urbanas, como gosto de chamar aqueles momentos tragicômicos que acontecem no meu cotidiano. Pareceu uma boa oportunidade de dividir essas coisas com quem quiser ler. 

O nome surgiu quando pensei na expressão que mais uso no final das minhas frases e ainda é uma bela referência à minha música favorita da Legião Urbana. "Mas tudo bem" não é apenas o refrão de Giz, mas um trending topic da minha existência. Uma mistura de conformismo quando merdas acontecem e não há nada que se possa fazer a respeito, ou do otimismo que precisei costurar em mim pra não enlouquecer. E tem sempre aquele trecho da música do Engenheiros. "Já vi o fim do mundo algumas vezes, mas na manhã seguinte tava tudo bem". Sentar na frente do meu computador pra escrever sobre minhas desventuras é prova suficiente de que tudo acabou bem e vida que segue. 

Estou empolgada com essa nova aventura e com vontade de escrever mais (lá e aqui também, juro). Ainda não tenho noção da periodicidade e linha editorial é uma coisa que jamais passou pela minha mente. Só quero experimentar e ver o que acontece. E aí? Posso aparecer na sua Caixa de Entrada de vez em quando? Clica aqui e vamos embarcar nessa juntos. 

Queria ler a newsletter da Jane Austen, e vocês?
(É sério, respondam nos comentários!)

Love, Tary 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Seja como for, eu vou

Escrevi no Facebook e no meu journal, mas não parecia certo começar 2016 sem tirar a poeira deste blog e falar um pouquinho sobre o ano que passou. Ainda mais considerando que hoje completo seis (seis!!!) anos de Doces Rodopios. Posso ter passado grande parte desse tempo desaparecida, é verdade, mas sempre voltei. Sempre volto. E hoje dou sinal de vida pra dizer que mal posso acreditar que 2015 finalmente chegou ao fim. Foi um ano difícil, cheio de altos e baixos, repleto de tragédias e escândalos. Porém, no que diz respeito à minha humilde vidinha, estes 365 dias foram muito importantes. Olhando para trás, parece que vivi mil vidas.

Comecei o ano pedindo demissão e passei meses sem saber o que raios iria fazer em seguida. A expressão “mixed feelings” nem começa a descrever o que aconteceu dentro de mim depois desse passo gigantesco. E no fim das contas, os patos se enfileiraram. Decidi atravessar o mundo em busca de mim mesma. Semprei sonhei em fazer intercâmbio e aproveitei esse momento de dúvidas angustiantes (sério, eu tava enloquecendo) pra realizar esse desejo. Sabe quando você sente que, se não fizer algo “agora”, talvez nunca mais tenha essa chance?

Mas antes de desembarcar em Dublin, a missão de surpreender a noiva do ano precisava ser cumprida. Eu e minhas amigas alugamos um apartamento no Rio de Janeiro, fomos juntas para a balada (pela primeira vez, já que sempre preferimos bater papo de pijama) com coroas típicas de despedida de solteira, ostentamos bolo e champanhe e passeamos na Urca <3 (não consigo escrever Urca sem colocar um coração do lado, me perdoem). E em junho, Couthinha casou. Na cerimônia mais linda que meus olhos já viram. Nós fomos damas, seguramos buquês e choramos horrores, como esperado. Ainda não consigo explicar o que aconteceu naquele dia. Parece um sonho que sonhamos em conjunto. E de certo modo, foi mesmo.

Então, depois de alguns dias, meus pés tocaram a Ilha Esmeralda. O último texto traz um bom resumo dos meus primeiros 100 dias aqui, mas teve muito mais. Um Halloween de verdade, com todo mundo fantasiado nos pubs do Temple Bar. Caminhadas de mais de 30 quilômetros em busca de emprego. O fim do meu curso de inglês. Trabalho voluntário. A decisão mais difícil que já tomei em 24 anos. Um Natal longe de casa com direito à ceia farta, amigos pra vida inteira e o coração quebrado de saudades.

E tem quem pense que intercâmbio é glamour. Essa experiência tem mais suor, lágrimas, bolha no pé e dor de cabeça do que as pessoas imaginam. É um tal de passar a semana comendo porcaria porque não dá tempo de almoçar em casa (e nem se tem dinheiro pra comer bem em algum restaurante). Não fazer coisas simples, que no Brasil faziam parte do cotidiano, como comprar uma roupa só porque achou bonita, ou pegar um táxi só porque está chovendo muito. Intercâmbio é sacríficio. É escolher prioridades. É poupar hoje pra ter amanhã. Não é fácil estar aqui. E mais difícil ainda foi escolher ficar mais um pouco. A saudade da minha família aperta tanto que às vezes sinto vontade de pegar um avião e correr para os braços de quem mais amo nesse mundo. Ficar é colocar em prática o exercício da renúncia todos os dias, mas também significa abraçar uma vida que só posso ter aqui. E que vai ficar aqui quando eu voltar.

Ah, só mais uma coisa. No dia 31 de março, em pedaços, eu postei o seguinte: “(…) nunca quis tanto: escrever, me apaixonar e viajar por aí. Apesar de não me considerar boa ou preparada o suficiente para nenhuma dessas coisas.” E adivinhem só? Todas essas coisas aconteceram em 2015. Eu continuei documentando tudo no papel (completei um ano mantendo um journal), estou morando na Irlanda há seis meses e… me apaixonei. Foi bem diferente dos filmes da Disney (essas músicas dizem tudo, caso alguém esteja curioso) e passou longe de se tornar amor, mas não me arrependo de absolutamente nada. Pelo contrário, tenho certeza de que tudo o que me permiti viver (e sentir) vai refletir no “daqui pra frente”. Já dizia o Poetinha que o amor da nossa vida é feito de todos os outros que a gente teve.

Terminei 2015 me sentindo grata, infinita e, principalmente, orgulhosa de mim. Eu provei  que consigo me virar. Me dei um voto de confiança. Acreditei que podia. Nunca corri tantos riscos em tão pouco tempo. Tive que driblar a indecisão e fazer escolhas complicadas. Experimentei o gosto da coragem e pedi mais. Chorei, sofri, me perdi, mas meu Deus do céu, como eu vivi.

Se a Taryne do futuro tivesse contado para a Taryne do passado tudo o que a aguardava, ela provavelmente morreria de rir, incrédula. Não faço a menor ideia do que 2016 me reserva. Só quero aprender ainda mais. Colecionar memórias bonitas e experiências desafiadoras nessas páginas em branco que agora parecem tão intimidadoras. Mas seja como for, eu vou. Estamos indo. Boa jornada para todos nós!

Alguns dos melhores momentos de 2015

Love, Tary

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Eu gosto do gosto da coragem

Faz meio ano que não escrevo aqui. Parece exagero dizer isso, eu sei. Mas é a verdade. Seis meses desde o último post. Quem acompanha minha vida somente através deste blog não faz ideia do que raios aconteceu desde março de 2015. E, meu Deus, aconteceu tanta coisa. E quanto mais o tempo passou, mais coisas foram acontecendo e aí só ficou mais difícil voltar. Não sei se existe um breve resumo possível, mas vou tentar. Em abril, eu decidi que era a hora certa de fazer um intercâmbio. E do momento em que fechei o contrato com a agência até a data da minha viagem foram menos de 45 dias.

Vocês conseguem imaginar a quantidade de sentimentos que fizeram a festa dentro de mim durante esse período? Nem tive muito tempo para processar todos eles. No dia 26 de junho, por mais louco que isso ainda me pareça, eu desembarquei em terras irlandesas. Isso mesmo. Estou vivendo em Dublin há quase quatro meses. Mas a sensação é de que já estou na Ilha Esmeralda há um ano. Tudo é tão intenso nesse lugar. Parece uma realidade paralela onde cada acontecimento é amplificado ao extremo. Amizade de duas semanas vira irmandade. Aniversário longe da família é a pior das mortes horríveis. Você vê o fim do mundo algumas vezes e, horas depois, se sente capaz de alcançar o céu.

Lembram da garota com uma bebida na mão e um sorriso no rosto, que se joga na pista de dança como se ninguém estivesse olhando? Ela apareceu muito por aqui. Descobri que gosto tanto de sair pra me divertir quanto de ficar em casa vendo filme com as minhas flatmates. Existe lugar para as duas coisas e nenhuma precisa valer mais do que a outra. Eu entendi que sei me virar muito bem sozinha. Compro e preparo minha própria comida todos os dias. Uso o GPS ao invés de ligar para o meu pai. Vou a pé para todos os lugares que pretendo ir. Divido um flat com outras duas pessoas que conheci aqui. Só dependo de mim mesma. E isso traz um frescor de liberdade que todo mundo precisa experimentar.



Em 100 dias de Irlanda eu aprendi que não dá pra se sentir totalmente seguro em lugar nenhum do mundo, mas isso não pode me impedir de voar. Aprendi que posso me permitir gostar de alguém e viver isso sem medo. Fazer e dizer o que achar que devo, mesmo que as coisas terminem do mesmo jeito que começaram: por acaso. Prefiro as lembranças de beijos na chuva do que meu coração protegido de antes. Passei anos prometendo a mim mesma que iria sair de casa e viver. Isso nunca foi tão real quanto é agora.

Eu vi um show do Ed Sheeran depois de uma loucura pra conseguir o ingresso  e chorei ao escutar Tenerife Sea ao vivo. Adicionei os Cliffs of Moher à minha lista de “coisas mais lindas do mundo”. Me apaixonei pelos parques de Dublin. Tirei uma selfie com o Oscar Wilde. Encontrei num livro a descrição do lugar sombrio em que eu havia acabado de colocar os pés. Entreguei flyers por 20 euros e uma pizza. Vivi momentos dignos de comédias românticas com protagonistas destrambelhadas. Precisei lidar com várias despedidas. Além de intenso, tudo acaba sendo muito efêmero no intercâmbio. Pessoas que entram e saem das nossas vidas. O bonito é que muitas delas deixam marcas inesquecíveis.

Sinto falta do Brasil. Não tenho o quarto da minha irmã ao lado do meu. Nem abraço de mãe quando as coisas dão errado. Nem meu pai me chamando de “branca”. Mas me sinto forte. Não sei como. Não sei de onde vem. Vou superando cada obstáculo que insiste em supor que eu não deveria ter vindo. Eu sei que, neste momento, meu lugar é aqui. Aqui, onde eu aprendo a cada dia. Aqui, onde eu às vezes olho em volta e nem acredito. Uma aventura que eu não fazia ideia de que iria escrever este ano e já acumula tantas páginas. As folhas em branco me assustam um pouquinho, eu admito. Ainda não sei qual vai ser a história que elas vão abrigar. Acordo e vou dormir com um milhão de dúvidas na minha mente. Só sei que provei uma boa colherada dessa tal de Coragem e quis repetir. Eu descreveria o sabor como agridoce. Nem sempre acordo cedo, ou me sinto ótima, mas com certeza a melhor viagem é seguir a trilha que eu abri.




Love, Tary

terça-feira, 31 de março de 2015

Primeiro trimestre

large (2)

Aconteceram tantas coisas na minha vida nesses três meses que eles parecem ter durado cinco anos. Deixei um emprego sem ter outro em vista. Sofri uma grande decepção. Voltei a estudar. Chorei tanto que ainda não sei como sobrevivi. Me tornei ainda mais grata por ter uma família que me ama tanto. Me perdi, me encontrei, me perdi de novo, me encontrei de novo. Estou me procurando.

Entendi que ir embora pode ser a coisa mais corajosa a se fazer. Aprendi que perdoar às vezes é muito difícil, mas é importante fazer uma tentativa. Me convenci de que é muito cedo para abandonar os meus sonhos. Constatei que eu nunca quis tanto: escrever, me apaixonar e viajar por aí. Apesar de não me considerar boa ou preparada o suficiente para nenhuma dessas coisas. Virei noites e noites (essa, inclusive) tentando entender mil coisas sobre mim mesma. E as conclusões não param de mudar.

Amadureci muito, mas ainda me sinto aquela menina de 8 anos com várias ideias diferentes sobre o que seria quando crescesse. Enumerando possbilidades, imaginando sem parar as consequências de cada caminho. Desde pequena eu tenho essa mania de pensar muito. Principalmente no que os outros estão dizendo. Se estão rindo de mim, balançando a cabeça para as minhas escolhas, analisando cada um dos meus erros. Isso destrói minha vida em tantos aspectos. Dar uma importância enorme ao julgamento das outras pessoas. Deixar que me atinjam. Me comparar com elas.

large (1)

Theodore Roosevelt disse: “Comparison is the thief of joy”. Como discordar? Comparar nossas vidas com a dos outros é uma das coisas mais cruéis que podemos fazer com nós mesmos. A gente se sente fracassado, inútil, ficando para trás. Não consigo dizer quantas vezes eu me senti assim, perdi todas as forças e quis ir pra casa chorar.  Jon Acuff disse: “Don’t compare your beginning to someone else’s middle”. Cada um tem o direito de escolher a vida que pretende viver. São ritmos diferentes, outros objetivos, prioridades opostas. Não sei quanto ao resto do mundo, mas a minha prioridade é ser feliz.

Vira e mexe eu acho que não dá mais tempo. Que é tarde demais para reviravoltas. Que acabou. Não é nada saudável viver na minha cabeça e eu estou nela o tempo todo. Nesses momentos, as palavras socorrem. A arte liberta. O choro conforta. Às vezes, por incrível que pareça, sou salva por uma versão antiga de mim. Há dois anos, eu passei por uma mudança brusca e escrevi:O que me move é olhar para o espelho e não enxergar uma ressentida que abandona a essência como se nada fosse e joga os princípios no lixo. Vejo uma menina que não sabe ainda o que pode esperar do futuro e se sente um bocado perdida, mas vai à luta. É difícil. Leva tempo. A vida é imprevisível. Mas dizem que em algum momento eu vou ter certeza de que não foi em vão.”. É difícil dizer se ainda tenho muito em comum com a dona desse texto, mas concordo com ela. Queria um abraço dela. Bem forte.

Na sexta-feira passada, estive em uma festa sensacional. Fazia tempo que andava me sentindo muito sem vaidade, sem paciência, sem vontade de me arrumar. Naquele dia, por alguma razão, eu decidi me empenhar. Coloquei brincos dourados enormes, usei um vestido de renda romântico, arrisquei no smokey eye, passei o batom magenta mais bonito do mundo. Me senti linda e confiante pela primeira vez em muito tempo. E me diverti horrores. Não pela maquiagem, não pelo vestido, mas pela mudança de atitude. Pelo menos por uma noite eu não precisaria me preocupar com o depois. No dia seguinte, me dei conta de que a garota produzida, com uma caipirinha na mão e um sorriso no rosto, que se joga na pista de dança como se ninguém estivesse olhando, não precisa ir embora quando o fim de semana chega ao fim. Ela pode ficar. Eu quero que fique.

mer

Às vezes eu acho que passei um tempo precioso só me preocupando. Parece que metade de mim vira medo e a outra, uma triste coleção de dúvidas. Estou exausta. Não dá pra continuar assim. Chegou a hora de acreditar. Dar uma chance para a leveza que mora em mim, em algum lugar. Esquecer os julgamentos dos outros, enterrar fatalismos. Ver o que acontece. Ter um pouco de esperança. Colocar os holofotes no presente.

large

Aconteceram tantas coisas na minha vida nesses três meses que eles parecem ter durado cinco anos. Eu me sinto grata, cansada, feliz, triste, velha, jovem, sábia, perdida, cheia de coragem e morrendo de medo. Estou me redescobrindo.

Love, Tary

segunda-feira, 23 de março de 2015

Dicas para documentar a vida no papel

Depois de incontáveis vídeos no YouTube, fotos inspiradoras no Instagram, um livro a respeito do assunto e quase quatro meses escrevendo praticamente todos os dias, eu finalmente me sinto mais ou menos apta para fazer esse post com dicas para quem também quer documentar a vida em um journal. Quando falei sobre isso no meu canal, recebi vários comentários de pessoas com muitos bloqueios para começar (ou continuar). Gente com medo da página em branco, sem paciência para hábitos diários e até mesmo com receio de que a privacidade daquele caderno não fosse respeitada. 

Começo dizendo o seguinte: se eu consegui, vocês conseguem. Sempre quis manter um diário, mas foram tantas as tentativas fracassadas que eu já tinha desistido. Cansei de prometer que usaria a agenda inteira e terminar o ano com 20 páginas escritas no primeiro mês.  Isso mudou em dezembro do ano passado, por razões que já expliquei aqui, e agora simplesmente não consigo me imaginar deixando de arquivar a vida no papel. Chegou o momento em que pareço estar esquecendo alguma coisa quando não escrevo, sabe? E como eu adoro tagarelar sobre as minhas obsessões, resolvi tentar fazer vocês embarcarem nessa comigo.

20150323_142024(0)

Não tenha medo de errar

Percebi que a necessidade de fazer tudo com perfeição me prejudicava muito. Bastava uma palavra escrita errada ou um borrão de caneta para eu me irritar, desistir de escrever, arrancar a página. Foi muito fácil resolver isso: comprei um corretivo. Pronto. Seu journal reflete quem você é e seus erros também são importantes. Lembram do meu mantra desse ano? A done something is better than a perfect nothing. Descobri essa quote maravilhosa em um livro sobre journals e foi essencial para superar essa roubada de parar de fazer só por não estar impecável. Nunca vai estar. A graça mora justamente na imperfeição.

20150323_142804

Esqueça o pavor da página em branco

Muita gente considera a primeira página totalmente assustadora. E isso tem tudo a ver com o item anterior: medo de arruinar o caderno limpinho e imaculado. Concordo com a minha journaltuber (essa palavra existe ou eu acabei de inventar?) favorita quando ela diz que escrever não destrói nada, pelo contrário, torna um journal melhor. Deixar em branco é o verdadeiro desperdício. Por isso, comece. Escreva o porquê de tentar manter um diário, faça um self image 2015, fale sobre o último livro que você amou (ou série, filme, peça de teatro, vídeo no YT, reportagem, post de blog), faça listas das coisas que te fazem feliz. Apenas comece.

20150323_142412

Não se pressione para escrever todos os dias

Ter usado o meu journal por 30 dias seguidos foi um intensivão do qual eu precisava, mas  já fiquei um bom tempinho sem escrever e tudo bem, sabe? Não existe patrulha do journal. Ninguém vai ter chamar de poser por não escrever diariamente. Deixou de lado por três meses e bateu vontade de voltar? Faça isso. Não é uma agenda com datas que vão ficar em branco e causar depressão quando a gente olhar (aliás, não recomendo usar agendas como diários exatamente por isso). Se você tem medo de abandonar o pobre caderninho por um ano, minha dica é seguir gente inspiradora nas redes sociais para que elas te lembrem do quanto se divertiu na última vez.

20150323_142631

Abuse de quotes e decore como se não houvesse amanhã

Às vezes estou tão empolgada para escrever que passo um tempão enchendo o papel de citações depois do registro do dia (o mesmo serve para quando você não está com vontade de escrever at all). Minha técnica favorita é colocar várias quotes num papel Canson, com fontes diferentes, decorações diversas e então recortar do jeito que der na telha para colar no journal. Além de dar um efeito legal (deixa o caderno mais gordinho <3), posso usar a criatividade sem medo de fazer caquinha na página. Outra dica bacana é usar fitas coloridas nas margens. E ainda sai barato, viu. Essa da foto custou 75 centavos! As washi tapes, fitas japonesas decoradas, são bem mais caras, mas eu comprei três (por motivos de não resisti) e estou louca para chegarem logo. Adesivos são outra forma incrível de decoração. Pegue aquelas cartelas dos cadernos velhos da escola (que você não deixava ninguém tocar e acabou não tocando também) e se jogue. Não, ninguém aqui está velho para usar um adesivo do Pooh ou da Turma da Mônica. Largue de ser besta. Também não deixe de desenhar por não se sentir bom o suficiente: ninguém está olhando. Nem preciso falar de canetas coloridas e lápis de cor, preciso?

20150323_142732

Repense sua definição de “lixo” e cole tudo o que puder

O que você faz com ingressos, embalagens, recibos de compras, cartões de embarque, aquela folha de árvore linda que encontrou na rua? Se sua resposta for “jogo fora”, trate já de mudar isso. Todas essas coisas podem ser materiais para o seu journal. O mesmo vale para cartões-postais ou festivos, bilhetes e cartas (esses eu espero que você guarde ao invés de jogar no lixo, né?). Revistas também podem ser incríveis para encontrar aquela imagem perfeita do seu cantor favorito (e escrever sobre ele, claro) ou cortar figuras aleatórias e fazer colagens. Se a impressora tiver tinta, faça a festa escolhendo fotos no We Heart It.

20150323_142853

Tenha 2 coisas em mente: sua vida importa e você vai querer escrever sobre

Sem essa de “minha vida não é interessante o suficiente”. A principal diferença entre diário e journal é que o primeiro tem mais a ver com relatar o que aconteceu no dia, enquanto o mais importante no segundo é não esquecer de falar sobre os seus sentimentos. Não é  somente “hoje eu entreguei meu TCC”. É algo como: “hoje eu entreguei meu TCC e senti uma mistura estranha de alívio e orgulho. Sofri tanto com esse trabalho, pensei mil vezes em desistir, mas fico muito feliz por ter conseguido”. O que você está sentindo sempre será importante. Não só para quem está escrevendo agora, mas para o seu eu do futuro, que vai reler. Arquivar memórias é importante para relembrar, se conhecer e observar seu amadurecimento. A mágica aqui é: você realmente pode escrever sobre tudo. O sonho esquisito da noite passada que ninguém quis ouvir, a conversa de desconhecidos no ônibus, a briga horrorosa que te deixou em pedaços, o porre monumental naquela festa incrível, o conto que você está enrolando para escrever, sua primeira poesia. Cada pensamento, emoção, vivência, tentativa criativa e coração partido têm lugar no seu journal.

20150323_143144

Em caso de bloqueio criativo, aposte nos prompts

Journal prompts são tópicos para te estimular a escrever. Por exemplo, “minha lembrança favorita da infância”, “se eu fosse um animal, eu seria…” ou “se eu pudesse jantar com qualquer pessoa, viva ou morta, essa pessoa seria…” Confesso que ainda não precisei usar desse artíficio. Sempre tenho alguma coisa pessoal para registrar, mas já tenho vários anotados esperando a falta de inspiração bater à porta. A internet está recheada deles. O único porém é que a maioria, infelizmente, ainda é em inglês. Se não estiver familiarizado com a língua, vale pedir ajuda para um amigo ou até mesmo usar o velho Google Tradutor. Não é a melhor coisa do mundo, mas deve servir.

20150323_143832

Quotes escritas em Canson, recortes de revista e envelopes onde guardo tudo

Algumas dicas são quase instintivas: um journal bonito é um journal no qual você vai querer escrever (eu me apaixonei pela marca Peter Pauper Press e não sei se vou passar para outra tão cedo), esconda em um lugar seguro se tiver medo de alguém ler, seja sempre honesto com você mesmo, nunca esqueça de colocar a data (eu gosto de registrar o horário também), enfim. Tentei abordar os pontos principais e acho que não esqueci de nada muito essencial, mas se tiverem alguma dúvida, por favor, escrevam nos comentários. Espero ter convencido vocês! É uma das minhas mais recentes paixões e eu indico para todo mundo, de verdade. Aposto que vocês vão voltar depois me contando como escrever faz diferença.

20150323_142937

Love, Tary

quarta-feira, 4 de março de 2015

Coisas que vocês gostariam de saber sobre o blog (ou não)

"Quem não tem cão, caça com meme" tem sido um dos meus jargões favoritos há algum tempo. Principalmente nessa fase em que ainda não consegui voltar a escrever com a mesma frequência de antes. Por isso, fiquei super contente quando a fofa da Michas (aniversariante do dia, aliás, parabéns, Michas <3) me convidou a responder essas perguntas do One Lovely Blog Award. É um questionário bem bacana para os antigos e novos leitores conhecerem um pouco mais sobre o blog.

Por que decidiu criar um blog e quando começou?
A decisão surgiu da vontade de compartilhar a vida e minhas paixões através da escrita, algo que sempre gostei de fazer, mas não compartilhava com todo mundo. O Doces Rodopios nasceu em 2010 (e lá se vão 5 anos, minha gente), mas eu sou blogueira há bem mais tempo que isso.

Quais são os benefícios que o blog te traz?
Adoro desabafar, dividir experiências, tagarelar sobre o que eu gosto muito e conhecer pessoas novas com quem partilhar tudo isso. Essas coisas me trazem bem-estar. Também sinto que, com o passar dos anos, passei a escrever melhor. Lógico que às vezes acho que só falo besteira e bate aquela vontade de excluir tudo (quem nunca, né?), mas na maior parte do tempo consigo enxergar uma certa evolução e isso é legal.

Qual é o post mais acessado?
O post mais lido de todos os tempos é um lá do início do blog, sobre os 10 melhores filmes chorantes, na minha opinião, claro. Fui conferir e todos merecem estar na lista porque ainda provocam o mesmo efeito, mas claro que hoje em dia acrescentaria mais alguns. Quem sabe um dia não resgato essa ideia.

Você usa as redes sociais?
Eu sempre demoro muito para aderir. Foi assim com o finado Orkut, com Twitter, Facebook, Instagram.... Porém, não é muito difícil me conquistar e obviamente estou em todas elas. Vocês também podem me encontrar no Youtube, Skoob, Filmow, Orangotag, Last FM e We Heart It. Clique aqui para encontrar os links de todas essas redes.

Como o blog tem evoluído?
Não faço a menor ideia. Confesso que minha criatividade e ânimo para escrever diminuíram consideravelmente. Vocês já estão cansados de saber que não sou a blogueira mais presente desse mundo. No entanto, por algum motivo, nunca desisti por completo. Gosto de estar aqui e espero continuar, mas como meu retorno é muito recente, as coisas ainda estão se encaminhando.

Já viveu um fato importante por causa do blog?
Sim! O maior deles foi ter conhecido a Máfia, também conhecida como A Gente, também conhecida como "blogueiras que se tornaram grandes amigas". Quem diria que tudo começou com a criação de um grupo no Facebook para termos "ideias de post" e acabou se transformando nessa loucura tão mágica. Construímos uma história que eu vou contar para os meus netos, com certeza.

De onde nasce a inspiração para escrever e continuar com o blog?
Tudo o que está ao meu redor, principalmente a vida e todos os tipos de arte.

O que você tem aprendido a nível pessoal e profissional este ano?

Boa pergunta. Na vida pessoal, eu aprendi que não consigo ficar sem escrever. Não importa se for nesse blog ou nos meus journals que ninguém lê. Deixar de transformar meus pensamentos em palavras e registrar em algum canto é meio sufocante pra mim. Com relação à vida profissional, o maior aprendizado desse ano foi o seguinte: minha felicidade é maior que ela. Acho que isso diz muito. Agora, se a pergunta se refere ao blog e ao canal, posso dizer que ainda estou aprendendo e conto quando achar que devo.

Qual é sua frase preferida?
Ultimamente tem sido “a done something is better than a perfect nothing”. Já disse que esse é meu mantra de 2015 e tem me ajudado a produzir. Não dá mais pra deixar de fazer as coisas por conta do meu perfeccionismo ou do que os outros vão pensar.

Qual conselho você daria para quem está começando agora no mundo dos blogs?

Só comece se for por amor. Não entre nessa pra, sei lá, ganhar dinheiro, presentes, parcerias. Nada de comentários do tipo “que lay lindo, passa no meu?” nem de ficar se divulgando nas redes sociais alheias. Isso é extremamente chato e pode até te render visitas, mas de blogueiros que vão te tratar exatamente da mesma maneira impessoal. Se comportando assim, você estará perdendo alguns dos aspectos mais legais de ter um espaço na internet: conhecer gente bacana e ser lido. Aliás, sempre leia os textos antes de comentar. Também acho importante ter paciência. Não é da noite para o dia que você vai ter vários comentários, seguidores, amigos de verdade. Tudo isso leva tempo. Pra finalizar, os três últimos conselhos: seja você mesmo, se divirta, não leve mais a sério do que o necessário.

O que os blogs que você vai indicar tem em comum? 
As donas são duas pessoas lindas e que são minhas amigas. Indico o Pudding, da Couthinha, e o Pensamentos de Lilica, da Lili.

Love, Tary

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Pitacos sobre o Oscar

Chegou aquela época do ano em que, depois de reclamar horrores do quanto o Oscar é retrógrado e injusto, a gente mal pode esperar para sentar na frente da TV e torcer pelos favoritos, exercitando o fangirling nosso de cada dia com uma intensidade um pouquinho mais assustadora do que de costume. Dessa vez, ter ânimo para ver tudo foi bem mais complicado do que em 2014, mas posso dizer que o saldo foi até positivo. Só boicotei um filme (sorry, Bradley Cooper), não tive que ver nada dirigido por David O. Russell e mesmo começando minha Maratona Oscar na sexta-feira, assisti sete dos oito indicados a Melhor Filme, além do esnobadíssimo Garota Exemplar. Resolvi então dividir com vocês alguns pitacos sobre os escolhidos da Academia. Nada de sinopses, só minha opinião. Coloquei as apostas e torcidas no final do post.

A Teoria de Tudo, de James Marsh

teory

O filme toma tanto cuidado para não manchar a imagem dos retratados, que acaba passando a sensação de que em nenhum momento nós os conhecemos de  verdade. A interpretação de Eddie Redmayne é de aplaudir de pé, mas Felicity Jones não me convenceu tanto assim. Talvez nem ela tenha tido acesso à real  personalidade de Jane Hawking. Uma pena. Pelo menos o ritmo é bacana. E caso alguém esteja se perguntando: não chorei.

Selma, de Ava DuVernay

david

David Oyelowo não ter sido indicado a melhor ator foi uma das maiores injustiças que acompanhei desde que assisto ao Oscar. O Martin Luther King construído por ele é extremamente humano e consegue arrepiar nos discursos, como não poderia deixar de ser. Mas sendo bem sincera, achei o filme meio enfadonho em alguns momentos.

Whiplash, de Damien Chazelle

whiplash

Aí a gente lembra que o diretor não está indicado ao Oscar e só consegue se lamentar porque esse é um dos aspectos mais brilhantes do filme, ao lado das atuações de J.K. Simmons (favorito ao prêmio) e Miles Teller. O ritmo é maravilhoso, fiquei vidrada na trama do início ao fim, louca pela próxima cena. E que final! Aqui, a música serve como pano de fundo para abordar obsessões. Se engana quem pensa que o filme É sobre música. Mesmo assim, não deixa de mostrar a arrogância presente nesse meio. A gente romantiza a arte até onde pode, mas o que tem de gente com falha no caráter e rei na barriga não está escrito. Infelizmente, humildade e talento nem sempre andam juntos. Na minha opinião, os personagens não são endeusados, mas expostos como o que realmente são: pessoas tristemente egocêntricas que podem até encontrar o que procuram um no outro, mas nunca vão alcançar a perfeição que tanto perseguem.

Birdman, de Alejandro Iñarritu

birdman

Insano, engraçado e... muito bom. Desculpa mundo, mas eu absolutamente amei as alfinetadas nos blockbusters e nos críticos de cinema. Adoro filme de super-herói e ler críticas é um dos meus passatempos favoritos, mas nada disso é intocável a ponto de não poder ser colocado na mesa para debate. Michael Keaton está apenas sensacional correndo de cueca, usando peruca molhada e limpando a boca com a metáfora da filha. Tem o Oscar do meu coração <3 Edward Norton me lembrou um pouco o personagem de Jonah Hill no ano passado: um babaca tão fora da casinha que acaba fazendo a gente morrer de rir. E olha, Emma Stone é um ser humano notável e sempre será, mas ainda não entendi o que fez de tão impressionante para ser indicada. Pra mim, ela foi competente e só. O único problema aqui é que o filme sabe o quanto é bom e tende a ficar meio presunçoso.

Grande Hotel Budapeste, de Wes Anderson

grandhotel

Tenho a impressão de que será o grande esnobado da noite nas categorias principais, mas deve levar aquelas que a maioria não liga muito. Maquiagem, figurino e cinematografia merecem reconhecimento. Ralph Fiennes está muito divertido, chamando policiais turrões de "darling" e sendo constantemente alertado para não flertar. Também adorei a intepretação de Tony Revolori. Zero me rendeu muitas risadas com suas respostas monossilábicas depois de ouvir o blá-blá-blá do chefe. Além disso, fiquei encantada com o jeito que a história é contada, dentro de várias outras. Mas não cheguei a ficar arrebatada de amor, cês entendem?

O Jogo da Imitação, de Morten Tyldum

cumber

Eu estava morrendo de preguiça do filme, mas acabei pagando a língua. Benedict Cumberbatch está simplesmente fantástico! Ele se despiu de quem é para se transformar em Alan Turing. A construção ficou perfeita. Além disso, me conectei bastante com a história, apesar de algumas frases feitas terem me incomodado um pouquinho (e do filme evitar correr riscos). Destaque para Alex Lawther, que interpreta o protagonista na juventude. Além de ter entendido o personagem, o garoto ainda captou alguns gestos de Cumberbatch de maneira perfeita. 

Boyhood, de Richard Linklater

boyhood1

Chegamos ao meu favorito disparado. Eu até consigo ver algumas falhas, como algumas referências meio forçadas, principalmente no início.  Mas nada grande o bastante para tirar o mérito de uma história com diálogos tão naturais, edição primorosa e que deixa uma sensação tão boa quando chega ao fim. Richard Linklater  realmente merece o Oscar de melhor direção. Ele é mestre em devolver nosso deslumbramento com a vida real através da ficção. Patricia Arquette e Ethan Hawke (<3) estão excepcionais e seus personagens mostram totalmente o quanto nossos pais são imperfeitos. Boyhood acerta muito ao retratar o que é estar vivo: lidar com rotina, mudanças e colecionar pequenos momentos marcantes que fazem essa loucura toda fazer algum sentido. Mesmo que a gente sempre espere mais.

Sniper americano, de Clint Eastwood

american

Sempre tem o filme que está na lista só pra gente ter o prazer de boicotar, né?

Apostas e torcida

Melhor filme
Vai ganhar: Boyhood
Minha torcida: Boyhood <3 <3 <3

Melhor atriz
Vai ganhar: Julianne Moore
Minha torcida: Rosamund Pike (give Amazing Amy an Oscar)

Melhor ator
Vai ganhar: Eddie Redmayne
Minha torcida: Michael Keaton (mas vou amar muito se o Eddie levar)

Melhor ator coadjuvante
Vai ganhar: J.K. Simmons
Minha torcida: Impossível ver Ethan Hawke entre os indicados depois de uma performance sensacional e não torcer por ele, mas J.K. Simmons merece muito. Fico dividida </3

Melhor atriz coadjuvante
Vai ganhar: Patricia Arquette
Minha torcida: Patricia Arquette

Melhor direção
Vai ganhar: Richard Linklater
Minha torcida: Richard Linklater (Que Iñarritu não destrua meus sonhos)

Love, Tary

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Retrospectiva literária em fevereiro, sim senhor

Postei sobre as minhas melhores leituras do ano passado lá no meu canal no YouTube há alguns dias e já estava com vontade de colocar o vídeo aqui, além de dividir outros pitacos. Mas aconteceu o que sempre acontece: a vida. Uma grande mudança, viagem, enfim. Só agora tive tempo. Espero que não esteja muito tarde pra vocês saberem mais um pouquinho sobre o que eu li em 2014!

Os melhores

Menções honrosas

Thriller do ano: No Escuro, de Elizabeth Haynes (livro de suspense que te faz se importar com os personagens e não apenas correr pra saber logo o desfecho).

Melhor livro de não-ficção: Renato Russo – O Filho da Revolução, de Carlos Marcelo (devorei feito pãozinho quente).

Infantis-amor: Matilda e A Fantástica Fábrica de Chocolate, de Road Dahl <3

Melhor casal literário: Eleanor & Park, de Rainbow Rowell (chorei no final e me apaixonei por eles).

Romance delicioso: A Garota Que Você Deixou Para Trás, de Jojo Moyes (mais um ano em que essa autora me ganha completamente).

Traço mais lindo da vida: Retalhos, Craig Thompson (quando um desenho parte seu coração).

Maior gerador de discussão: Menino de Ouro, de Abigail Tarttelin (pensei muito, aprendi e, apesar de ter achado que a autora exagerou, pelo menos ela esgotou o assunto, explorando todos os “what ifs” possíveis).

Melhor livro de poesia: Poesia Completa de Alberto Caeiro (meu encontro com Fernando Pessoa foi simplesmente mágico)

Mais gostoso que brigadeiro: O Presente do Meu Grande Amor (nada melhor do que contos fofinhos para fechar o ano, né?) e A Probabilidade Estatística do Amor à Primeira Vista (suspiros).

Soco no estômago: Ratos & Homens, John Steinbeck.

Framboesa de ouro literário

Desperdício de plot: Cartas de Amor aos Mortos, de Ava Dellaria (terrível, de verdade). Falo mais sobre ele na TAG Sandy & Júnior, também lá no canal.

Podia ser muito melhor: Memórias de um Amigo Imaginário, de Mathew Dicks (tantas possibilidades e virou isso aí).

Achei que ia me divertir, mas é uma droga: O Projeto Rosie, Graeme Simsion (previsível e machista, que beleza).

Maior decepção: A Mulher do Viajante do Tempo, de Audrey Niffenegger (sonhei um sonho lindo de amar e foi bem mais ou menos). Fahrenheit 451, de Ray Bradbury também cabe aqui =/

Pior livro do ano: Cidades de Papel (John Green me mistura um monte de quotes bonitinhas com uma história péssima, bate no liquidificador e voilá:::: um livro. Não foi dessa vez, filho).

Livros bons que não me arrebataram

The Bell Jar, de Sylvia Plath.

A Metamorfose, de Franz Kafka.

Passarinha, de Kathryn Erskine

Bate-bola de personagens

Personagem apaixonante: Cameron Wolfe, de A Garota Que Eu Quero, do Markus Zusak (vocês precisam ler essa trilogia amor).

Personagem admirável: Irmãs Grimké, de A Invenção das Asas, da Sue Monk Kidd (falo mais sobre o livro nesse vídeo aqui).

Personagem mais chato: Margo, de Cidades de Papel (insuportável, mas pelo menos me provocou algum sentimento, diferente de todos os outros personagens do livro).

Personagem mais legal: Todo o elenco principal do maravilhoso Luna Clara & Apolo Onze, da Adriana Falcão. Também adorei os personagens de A Vida do Livreiro A.J. Fikry, da Gabrielle Zevin <3

Personagem mais perturbador: Lee, o psicopata assustador de No Escuro.

Personagem com quem mais me identifiquei: Matilda, do Road Dahl (ratinha de biblioteca que nem eu).

Para ver todos os livros que eu li no ano passado, clique aqui.

Love, Tary